Variante Mu

Variante Mu: O que se sabe e quais os riscos

  • Post author:
  • Post category:Covid-19

A nova variante do SARS-CoV-2, denominada Mu, já infetou 24 pessoas em Portugal e está a ser estudada pelo INSA. À VISÃO, o microbiologista João Paulo Gomes explica tudo sobre esta nova variante

Detetada pela primeira vez em janeiro de 2021 na Colômbia, a variante Mu – cientificamente conhecida como B.1.621 – foi responsável por 24 casos em Portugal nos meses de junho e julho. 

A informação foi avançada pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) que, em comunicado, anunciou que esta variante foi detetada em Portugal “pela primeira vez a 31 de maio de 2021, tendo atingido a sua maior frequência relativa (1.2%) durante a segunda semana de junho, altura a partir da qual apresentou uma frequência com tendência decrescente”. 

Em declarações à VISÃO, o microbiologista João Paulo Gomes, adianta que não foram detetados quaisquer novos casos desta nova variante em Portugal no mês de agosto, “o que constitui naturalmente uma boa notícia”. No entanto, é necessário continuar a monitorizar e avaliar, diz. 

O que caracteriza a variante Mu? 

Classificada no início deste mês pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como “variante de interesse”, a variante Mu caracteriza-se por ser “uma variante que tem combinações de mutações que já conhecemos” e não por mutações novas do vírus, explica João Paulo Gomes, também responsável pelo estudo da diversidade genética do coronavírus do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, salientando que “algumas dessas mutações já estavam presentes na variante Alpha, na variante Delta e na variante Gama”. 

De acordo com o microbiologista do INSA, “uma característica deste vírus é que, de facto, não há propriamente mutações novas a aparecer” e a variante Mu, sendo uma combinação de mutações já descritas cientificamente, é um exemplo disso. “Se sabemos que este vírus se caracteriza por ter oito, nove ou dez mutações com grande interesse e que percebemos que estão associadas a uma maior efetividade do vírus ou a um escape aos nossos anticorpos, há um número de possibilidades de combinar estas oito, nove, dez mutações de forma diferente”, esclarece em declarações à VISÃO. 

Quantos casos há no mundo? 

De acordo com João Paulo Gomes, estão descritos cerca de quatro mil casos da variante Mu em todo o mundo. De momento, esta variante está presente em 39 países, sendo que é na Colômbia e no Equador que se encontram as maiores taxas de prevalência, 39% e 13%, respetivamente. Diz a OMS que a prevalência global da variante Mu entre casos sequenciados diminuiu e está atualmente abaixo de 0,1%. O número total de infetados em todo o mundo é ainda baixo e o INSA declara ainda que a circulação da variante Mu em Portugal “será muito limitada”. No entanto, apesar de o número de infetados com esta variante ser baixo, o risco de transmissão e contágio não pode ser ignorado. 

Temos de nos preocupar com a variante Mu? 

A Organização Mundial da Saúde descreve esta variante como “uma constelação de mutações que indicam propriedades potenciais de escape imunológico”. O que quer isso dizer? Esta nova variante poderá comprometer a eficácia da vacinação, diz a OMS, alertando para os dados preliminares apresentados ao Grupo de Trabalho de Evolução de Vírus que “mostram uma redução na capacidade de neutralização” semelhante à observada para a variante Beta. 

Questionado sobre a possibilidade de a variante Mu poder comprometer a vacinação, João Paulo Gomes diz que ainda é prematuro tirar conclusões. “Não podemos tirar qualquer conclusão relativamente a isso”, alerta o microbiologista, embora reconheça que “duas ou três dessas mutações são mutações que estão perfeitamente identificadas como sendo mutações associadas precisamente ao escape ao sistema imunitário”, ou seja, “conseguem fazer com que o vírus se esconda de alguma forma dos nossos anticorpos”. Nesta perspectiva, continua, “poderíamos pensar que pode ser motivo de preocupação no que diz respeito às vacinas, mas isto não é minimamente conclusivo, porque estas mutações estão também noutras variantes, espalhadas ou concentradas, e não é por isso que as vacinas não resultam, pelo contrário”. 

Tal como a própria OMS refere, mais estudos são necessários para perceber o verdadeiro impacto da variante Mu, pois, de momento, “nenhum país do mundo tem estudos que permitam perceber se esta nova combinação faz brigar minimamente o processo de vacinação”, frisa João Paulo Gomes. 

Vai espalhar-se rapidamente pelo mundo? 

Tal como aconteceu com as novas variantes que até agora surgiram, o risco não é inexistente, sobretudo pelo facto de ainda não se saber se é uma variante mais transmissível do que as antecessoras. 

Para João Paulo Gomes, do INSA, o atraso no processo de vacinação em alguns países e a maior circulação em viagens podem ser gatilhos para que a variante se propague mais rapidamente. Porém, a baixa representatividade que a variante Mu tem mostrado até agora pode ser um indicador positivo. 

“Os países que têm taxas de vacinação muito diferentes de outros países são aqueles onde este tipo de variantes podem surgir mais facilmente, porque o vírus está em maior circulação e naturalmente as viagens também não ajudam, portanto, são precisamente os países onde a vacinação está mais atrasada que neste momento nos preocupam porque é lá, com certeza, que existe uma maior probabilidade de surgirem novas variantes”, diz o especialista, que não deixa de notar que ”uma boa indicação é de que em todo o mundo ela [variante Mu] retém uma baixíssima representatividade. Apesar de já estar em muitos países, não está a ganhar uma expressão significativa, está com níveis algo residuais e isso descontrai-nos um bocadinho, pelo menos não é um motivo de preocupação para já”. 

A OMS tem atualmente identificadas quatro variantes do vírus SARS-Cov-2 como preocupantes, incluindo a Alpha, que está presente em 193 países, e a Delta, presente em 170 países e é a variante dominante em Portugal desde finais de junho. Cinco variantes, incluindo a Mu, devem ser monitorizadas, diz o organismo.

fonte: https://visao.sapo.pt/visaosaude/2021-09-03-variante-mu-o-que-se-sabe-e-quais-os-riscos/