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Depois da Covid-19, vamos viver como antes ou readaptar-nos a uma nova forma de vida? Especialistas explicam

No Reino Unido, por exemplo, as pessoas estão, finalmente, a voltar a viver como antes: as discotecas e pubs reabriram e a obrigatoriedade de utilização de máscara deixou de existir. Em Portugal, que neste momento tem já metade da população vacinada, o mesmo vai acontecer em breve, ou assim se quer acreditar. E psicologicamente, como vai ser?

Se, em Portugal, o fim da Covid-19 parece continuar a ser uma realidade distante, com mortes diárias registadas e mais de dois mil casos novos por dia contabilizados, além de haver regras restristas nos concelhos de risco elevado e obrigatoriedade de utilizar máscara nos espaços públicos e rua para todos, noutros países, apesar de o vírus continuar a circular, a vida parece estar mesmo a normalizar.

Não vamos mais longe: no Reino Unido, desde 19 de julho que praticamente todas as medidas de contenção da pandemia foram aliviadas e espaços como discotecas – que continuam sem data de reabertura no País – voltaram a abrir portas no “Dia da Liberdade”. Nos Países Baixos, que têm uma média de quase 6500 novos casos diários de Covid-19 nos últimos sete dias, quase todas as medidas foram levantadas no fim de junho e já não é obrigatório utilizar máscaras na rua ou espaços públicos (nos transportes sim).

Bem perto de nós, as pessoas estão, finalmente, a voltar a viver como antes e, em Portugal, que neste momento tem já metade da população vacinada, o mesmo pode acontecer em breve, ou assim se quer acreditar. E psicologicamente, como estarão as pessoas? “Como será daqui para a frente, a História o dirá. As pessoas que têm conseguido ser moderadas a lidar com a situação, terão melhor prognóstico, obviamente, porque foram demonstrando ao longo deste tempo todo uma boa gestão da situação”, explica à VISÃO Andrea Moniz, psicóloga e diretora do Centro de Psicologia Dra. Andrea Moniz, em Cascais. “Quem terá maiores problemas em sair disto são as que estão verdadeiramente obcecadas com o tema Covid e dificilmente as suas vidas são mais do que saber os números dos infetados, dos internados, dos mortos, etc.”, acrescenta.

“Uma pessoa ansiosa tem medo em relação a qualquer coisa do futuro, do que pode vir a acontecer, vive a antecipar coisas negativas”, diz, por seu lado, Ana Paula Trindade, psicóloga clínica na CLIPEDAM, na Amadora, Lisboa. Perante estes pensamentos negativos relativamente ao futuro, a estratégia deste tipo de pessoas é inibirem-se e evitarem qualquer tipo situação social, explica a psicóloga.

Um inquérito internacional publicado em março deste ano, Life with Corona, que teve o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde como parceiro português e incluiu mais de 21 mil pessoas, deu conta de que “uma parte considerável da população apresenta sintomas ligeiros de depressão”. A investigação pretendia avaliar o impacto social e económico da Covid-19 e o inquérito foi realizado por pessoas de 136 países. Antes disso, em janeiro, os resultados da investigação “Saúde Mental em Tempos de Pandemia (SM-COVID19)”, realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, revelaram que cerca de 25% dos participantes apresentava sintomas moderados a graves de ansiedade, depressão e stress pós-traumático.

“A pandemia marcou-nos, mas de diferentes formas de acordo as características individuais e com as circunstâncias em que a vivemos”, esclarece Marta Gonçalves, Coordenadora de Psiquiatria e do Centro de Medicina do Sono do Hospital CUF Porto. “Se, por um lado, uns experienciaram fortes sentimentos de revolta com a perda de um emprego ou de uma empresa, ou até de um familiar sem oportunidade de despedida, outros perceberam a importância dos afetos e de um tempo de qualidade passado em família e com amigos”, continua.

Uma vida como antes ou um não retorno ao que éramos?

Quem conseguiu adaptar-se mais facilmente às circunstâncias da pandemia, terá, em princípio, um caminho menos longo para percorrer, quando as medidas forem praticamente todas aliviadas. “O que cada um faz com estas vivências é uma opção individual. Perante uma pandemia, posso “fechar-me para sempre no medo eterno”, ou perceber o que posso fazer, aceitar o que não controlo e crescer com mais consciência e maturidade neste cenário, valorizando o que é realmente importante  e “deixando cair” o que e acessório e inútil”, refere Andrea Moniz. De acordo com a psicóloga, “algumas pessoas não vão deixar hábitos que já não vão ser necessários ainda durante muito tempo, até se sentirem seguras novamente, se algum dia se voltarem a sentir”. Outras, explica, que foram mantendo o equilíbrio entre “cumprir as restrições e a dita normalidade social” e que tentaram manter os seus laços desde o início da pandemia, os encontros possíveis e as saídas sempre que foi permitido, vão conseguir desligar-se de hábitos criados durante esta altura com mais facilidade.

“Naturalmente, pessoas com níveis mais elevados de ansiedade prévia vão responder de forma mais exacerbada a acontecimentos como pandemias, quer através de manifestações obsessivas, intrusões e ruminações de teor hipocondríaco, sintomas de natureza fóbica e até em algumas ocasiões a ocorrência de crises de pânico”, afirma, por seu lado, Marta Gonçalves, acrescentando que as pessoas que já seguem um padrão mais ansioso apresentam, também, muitas vezes, “maior dificuldade em sincronizarem-se com a evolução das medidas de prevenção implementadas a cada momento”. 

De acordo com Ana Paula Trindade, uma pessoa que não sofra de ansiedade “pensa no futuro com algum entusiasmo, curiosidade e esperança”. Pelo contrário, pessoas mais ansiosas não se sentem preparadas para voltarem a viver uma vida sem as regras impostas devido à pandemia. “Um tipo de pessoas que pode ter agravado a sua sintomatologia é o tipo que tem personalidade obsessiva, que tem como caraterísticas o perfecionismo, a meticulosidade e a preocupação com o controle e as regras. É fácil perceber como as suas características foram reforçadas perante as regras de higiene e conduta a adoptar durante a pandemia”, refere a psicóloga. 

Contudo, a capacidade de adaptação do ser humano é enorme e um fator crucial, não para um regresso à vida exatamente como era, mas à vida que traz felicidade. “Penso que não faz sentido falar em não retorno, dada a capacidade de resiliência e adaptação que o ser humano teve e que o levou a procurar um novo ponto de equilíbrio psicológico perante circunstâncias adversas”, explica Marta Gonçalves, acrescentando que esta adaptação criou descobertas pessoais e sociais que o ser humano vai integrar nas vivências anteriores.

A solução é viver, sentir e fazer tudo aquilo que, antes de a pandemia começar, dava prazer, de uma forma gradual e com ajuda psicológica, sempre que for necessário. “Para nos adaptarmos novamente, devemos ampliar as atividades que enriquecem a nossa vida social e experimentar momentos de descontração e de prazer. Devemo-nos ir expondo gradualmente a situações que foram sentidas como perigosas e daí geradoras de ansiedade”, afirma Ana Paula Trindade. 

fonte: https://visao.sapo.pt/visaosaude/2021-07-26-depois-da-covid-19-vamos-viver-como-antes-ou-readaptar-nos-a-uma-nova-forma-de-viver-especialistas-explicam/

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